Algoritmo ou cérebro: quem define o voto?

A ascensão das mídias sociais e o recente advento da inteligência artificial (IA) generativa inauguraram um intenso debate no seio do Direito Eleitoral e da filosofia política. Discursos regulatórios, frequentemente imbuídos de um paternalismo tecnofóbico, pressupõem que o eleitor é um agente perfeitamente maleável e passivo, cujas preferências políticas seriam programadas por algoritmos ou desvirtuadas

Algoritmo ou cérebro: quem define o voto?

A ascensão das mídias sociais e o recente advento da inteligência artificial (IA) generativa inauguraram um intenso debate no seio do Direito Eleitoral e da filosofia política. Discursos regulatórios, frequentemente imbuídos de um paternalismo tecnofóbico, pressupõem que o eleitor é um agente perfeitamente maleável e passivo, cujas preferências políticas seriam programadas por algoritmos ou desvirtuadas por desinformação sintética. Sob esse prisma, o controle estatal sobre a circulação de informações é apresentado como salvaguarda indispensável para a higidez democrática. Todavia, essa premissa regulatória contraria as evidências acumuladas pela ciência cognitiva, pela psicologia social e pela análise empírica de pleitos eleitorais globais.

O processo pelo qual o ser humano define o seu voto é de uma complexidade multifacetada, enraizado em predisposições internas que se sobrepõem, de forma contundente, a estímulos externos. O presente artigo demonstra, à luz da literatura científica sobre a racionalidade humana e de relatórios empíricos de eleições recentes, que as mídias sociais e as ferramentas de inteligência artificial não são vetores decisivos na definição do voto. O caminho de escolha do eleitor é predominantemente interior, moldado por vieses de identidade e dinâmicas tribais, o que desmistifica o poder absoluto atribuído aos algoritmos digitais. Arquitetura cognitiva do eleitor e racionalidade expressiva Para compreender como o eleitor define seu voto, faz-se indispensável analisar a arquitetura cognitiva humana desenhada pelo aclamado psicólogo e linguista Steven Pinker.

Em sua obra sobre a racionalidade, Pinker demonstra que o cérebro humano não opera como um processador lógico neutro. Valendo-se das lições de Hugo Mercier e Dan Sperber, o autor esclarece que os seres humanos não evoluíram como ‘cientistas intuitivos’, mas sim como ‘advogados intuitivos’. A razão não se desenvolveu para a busca desinteressada de fatos, mas sim para a produção e avaliação de argumentos em contextos sociais, visando à persuasão e à defesa dos interesses do indivíduo e de sua facção ou ‘tribo’¹. Essa dinâmica é governada pelo ‘viés do-meu-lado’ ( my-side bias ) e pelo ‘raciocínio motivado’, mecanismos nos quais a habilidade cognitiva é direcionada para a validação de conclusões politicamente convenientes.

Como assevera Keith Stanovich, o viés do-meu-lado não é uma falha de inteligência bruta, mas sim um gatilho de preservação identitária que atua com vigor redobrado em temas políticos e morais, dividindo a sociedade em equipes concorrentes cujas visões de mundo tornam-se mutuamente incompreensíveis². O voto funciona como um símbolo de lealdade a esse agrupamento identitário, um ato expressivo de pertencimento cultural, blindado contra a lógica pura³. Stanovich sugere que não estamos em uma era de ‘pós-verdade’, mas sim em uma sociedade do ‘do-meu-lado’, onde ambos os lados acreditam na verdade, mas têm ideias incomparáveis do que a verdade é⁴. Os exemplos políticos mobilizados por Pinker ilustram com precisão essa barreira cognitiva.

O cientista destaca o clássico experimento de Dan Kahan sobre o controle de armas⁵. No estudo, os participantes analisavam dados numéricos sobre a eficácia de medidas de controle de armas na criminalidade. O resultado revelou que a ideologia política distorcia completamente a capacidade matemática: os democratas matematicamente talentosos só computavam os dados corretamente quando estes apoiavam a eficácia do controle de armas. Se os dados apontassem o oposto, eles erravam a aritmética.

O mesmo ocorria com os republicanos, que erravam o cálculo quando os números favoreciam o desarmamento. Pinker cita ainda a meta-análise de Peter Ditto, que revisou cinquenta estudos e confirmou que tanto liberais quanto conservadores exibem o mesmo nível de assimetria cognitiva, aceitando de forma acrítica conclusões que apoiam seu viés político e submetendo a um escrutínio implacável os dados que as contradizem⁶. As convicções políticas, sob esta ótica, decorrem da ‘racionalidade expressiva’: o cérebro prefere expressar opiniões que sinalizem lealdade ao grupo social para evitar a punição ou a ‘morte social’ dentro de sua própria tribo política⁷. Duas zonas de crença e mídias sociais como ‘bode expiatório’ Essa blindagem cognitiva é explicada pela distinção fundamental proposta por Pinker entre duas zonas de crença: a mentalidade da realidade e a mentalidade da mitologia.

A primeira abrange o mundo físico imediato, as interações diretas e as regras práticas cotidianas (manter o carro abastecido e o dinheiro no banco). Nessa zona, as pessoas pensam racionalmente e acreditam em uma realidade objetiva que, na célebre frase do romancista Philip K. Dick, ‘é aquilo que não desaparece quando se para de acreditar nela’⁸. Por outro lado, a mentalidade da mitologia governa esferas remotas da existência: o passado distante, o futuro incognoscível e as narrativas políticas e ideológicas.

Nessa zona mitológica, as crenças não são tratadas como proposições testáveis, mas como narrativas destinadas a construir solidariedade de grupo e sinalizar postura moral⁹. Pinker ilustra isso com o caso da teoria conspiratória Pizzagate (na qual se alegava que democratas operavam uma rede de tráfico infantil a partir do porão de uma pizzaria em Washington)¹⁰. Embora milhões de internautas compartilhassem o rumor nas redes sociais, quase nenhum agiu de forma consistente com uma crença na realidade (como chamar a polícia). A reação limitou-se a deixar uma avaliação de uma estrela no Google para a pizzaria, uma sinalização tribal, e não uma ação concreta¹¹.

O único a agir sob a mentalidade de realidade foi Edgar Welch, que invadiu o local armado para salvar as crianças, revelando a trágica colisão onde uma crença mitológica é erroneamente transposta para o mundo real¹². A partir desse panorama, Pinker argumenta que as mídias sociais se tornaram o grande ‘bode expiatório’ da irracionalidade pública contemporânea¹³. A disseminação de boatos bizarros e teorias da conspiração é tão antiga quanto a própria linguagem humana. Durante séculos, comunidades propagaram calúnias (como a acusação histórica de que judeus envenenavam poços)¹⁴.

Atribuir a polarização moderna estritamente às redes sociais ignora que o sectarismo político tem raízes mais profundas, como a fragmentação da imprensa e mídias especializadas de notícia¹⁵. As redes sociais funcionam apenas como um canal de escoamento ultraeficiente para demandas psicológicas pré-existentes. Os ajustes algorítmicos são insuficientes porque o problema não reside no canal, mas na fome do próprio eleitor por narrativas que sirvam de munição retórica para a sua guerra ideológica¹⁶. Dinâmica da crença de McRaney: assimilação, acomodação e modelos mentais Aprofundando a dimensão psicológica da formação das escolhas individuais, o cientista David McRaney demonstra que o cérebro é uma máquina dedicada à previsão, que opera gravando marcas neuronais de correlações percebidas no ambiente¹⁷.

Esses caminhos sinápticos constituem nossos ‘modelos mentais’. Quando o eleitor é exposto a novas informações, ele processa esses estímulos através de dois mecanismos descritos por Jean Piaget: a assimilação e a acomodação¹⁸. Na assimilação, o indivíduo incorpora a nova informação ao seu modelo mental preexistente sem alterá-lo. Diante de dados ou notícias políticas, o cérebro realiza uma ‘assimilação enviesada’, enquadrando os fatos para que confirmem suas crenças e ignorando o que os contesta.

A acomodação, por sua vez, é o processo cognitivo doloroso pelo qual o cérebro reconstrói seu modelo mental interno para se ajustar a uma evidência contraditória inevitável. McRaney recorda que, como o cérebro ‘não sabe o que não sabe’, ele tende a preencher as lacunas da realidade com explicações provisórias e narrativas causais confortáveis, preferindo a certeza fictícia à angústia da dúvida¹⁹. A reestruturação de crenças assemelha-se às mudanças de paradigma descritas por Thomas Kuhn na história da ciência. Kuhn ilustra essa transição cognitiva com ilusões ópticas biestáveis, como o desenho do ‘pato-coelho’: a mudança de percepção não decorre de uma alteração no desenho em si, mas sim de uma reinterpretação interna do modelo mental do observador²⁰.

Dessarte, a decisão de voto é uma construção soberana de foro íntimo: estímulos externos são quase sempre assimilados pelas defesas da mente, sendo incapazes de forçar uma acomodação cognitiva ou uma conversão de voto sem que ocorra um colapso prévio das estruturas interpretativas do sujeito. Impacto da IA em eleições globais: exagero e evidências empíricas A robustez dessas barreiras mentais encontra respaldo empírico direto nos achados da imprensa internacional e da academia. Felix Simon, pesquisador da Universidade de Oxford, em conjunto com o psicólogo Sacha Altay, assevera que o temor de que a inteligência artificial e a desinformação determinem o resultado das eleições é comprovadamente exagerado²¹. Em primeiro lugar, qualquer esforço de persuasão tecnológica esbarra na barreira implacável da atenção humana.

O eleitor médio dispõe de poucas horas livres para o consumo de conteúdo político, gerando uma concorrência feroz pelo seu foco²². Em segundo lugar, a desinformação sintética não atua no vácuo: ela atende a uma demanda preexistente por validação. Os indivíduos mais propensos a consumir e compartilhar deepfakes já possuem posicionamentos partidários cristalizados, moldados por laços familiares, fatores socioeconômicos e afinidades identitárias²³. O conteúdo gerado por IA atua meramente como um reforço de viés, e não como um vetor de conversão de eleitores indecisos²⁴.

Simon ressalta ainda que a facilidade de acesso a essas tecnologias gera uma ‘corrida armamentista’ simétrica: como todas as forças partidárias utilizam as mesmas ferramentas, estabelece-se rapidamente um ponto de equilíbrio tático, anulando potenciais vantagens exclusivas²⁵. Os dados empíricos compilados pela BBC sobre pleitos globais recentes, sob a análise do pesquisador Sam Stockwell (Instituto Alan Turing), sepultam de vez a tese da onipotência algorítmica²⁶: Na Irlanda (2025), um sofisticado deepfake da rede RTÉ News simulou a desistência de Catherine Connolly a três dias da eleição. Connolly venceu o pleito de forma esmagadora com 63% dos votos²⁷. No Equador (2025), vídeos manipulados com logotipos falsos da CNN tentaram associar Daniel Noboa a esquemas de corrupção.

Noboa acabou reeleito com 56% dos votos²⁸. Na Alemanha (2025), redes russas de desinformação divulgaram vídeos forjados (sequestrando a imagem do MI6 e da polícia) alertando sobre ameaças terroristas nos locais de votação. A campanha de pânico não produziu qualquer alteração no comparecimento ou no resultado das urnas alemãs²⁹. Na Romênia (2025), deepfakes de candidatos presidenciais foram veiculados, mas seu real propósito sequer era político, e sim a aplicação de fraudes e golpes financeiros contra o patrimônio da população³⁰.

Na Eslováquia (2023), o vazamento de um áudio falso do candidato Michal Šimečka no período de silêncio eleitoral foi rotulado como o primeiro caso de eleição decidida por IA. No entanto, investigações acadêmicas posteriores de Lluis de Nadal e Peter Jančárik demonstraram que a vitória de Robert Fico decorreu de fatores políticos estruturais consolidados (como a histórica suscetibilidade de parcelas do eleitorado eslovaco à propaganda pró-Kremlin desde 2010), e não da peça desinformativa isolada³¹. No Paquistão (2024), o ex-premiê Imran Khan, encarcerado, utilizou IA para discursar da prisão a seus apoiadores. A tecnologia serviu unicamente como canal de comunicação eficiente para uma base de eleitores já plenamente consolidada³².

Há que se esclarecer que a eleição presidencial romena de 2024 foi anulada devido a provas de interferência russa, utilização de robôs e financiamento ilegal, conforme explicamos em texto publicado nesta ConJur em 2025. Conclusão A análise integrada da ciência cognitiva e dos dados empíricos internacionais conduz à conclusão de que os algoritmos e as tecnologias de inteligência artificial não são determinantes soberanos na definição do voto. A tomada de decisão eleitoral é um processo eminentemente endógeno, de alta complexidade psicológica, estruturado sob vieses de identidade, racionalidade expressiva e modelos mentais profundamente arraigados na mente humana. Para o Direito Eleitoral, a desmistificação do poder da tecnologia é imperativa.

Políticas públicas e legislações que se alicerçam no pânico moral da ‘manipulação algorítmica em massa’ tendem a justificar intervenções estatais desproporcionais, promovendo censura prévia e mitigando a própria autonomia do cidadão sob um manto protetivo desnecessário. O combate à desinformação deve ser guiado pela alfabetização midiática e pelo fortalecimento das instituições republicanas, sempre respeitando a capacidade reflexiva do eleitor. No teatro da democracia, a inteligência humana, com suas paixões e suas estruturas de lealdade interna, permanece soberana frente às engrenagens invisíveis do código de computador. ¹ PINKER, Steven.

Racionalidade: o que é, por que parece estar em falta, por que é importante. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 309. ² STANOVICH, Keith.

The Bias that Divides Us. Apud PINKER, Steven, op. cit., p. 314.

³ PINKER, Steven, op. cit., p. 311. ⁴ Ibidem, p.

314. ⁵ KAHAN, Dan. Apud PINKER, Steven, op. cit., p.

311. ⁶ DITTO, Peter. Apud PINKER, Steven, op. cit., p.

312. ⁷ PINKER, Steven, op. cit., p. 316.

⁸ DICK, Philip K. Apud PINKER, Steven, op. cit., p. 317.

⁹ PINKER, Steven, op. cit., p. 319. ¹⁰ Ibidem, p.

317. ¹¹ Ibidem, p. 317. ¹² Ibidem, p.

318. ¹³ Ibidem, p. 305. ¹⁴ Ibidem, p.

305. ¹⁵ Ibidem, p. 315. ¹⁶ Ibidem, p.

336. ¹⁷ MCRANEY, David. Por que acreditamos no que acreditamos. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2023, p.

120. ¹⁸ Ibidem, p. 124. ¹⁹ Ibidem, p.

129. ²⁰ KUHN, Thomas. Apud MCRANEY, David, op. cit., p.

136. ²¹ BRAUN, Julia. Por que impacto da IA em eleições pode estar sendo exagerado. BBC News Brasil, 20 ago.

2026. Disponível aqui . ²² SIMON, Felix. Apud BRAUN, Julia, op.

cit. ²³ BRAUN, Julia, op. cit. ²⁴ Ibidem.

²⁵ Ibidem. ²⁶ BRAUN, Julia. Deepfake decide eleição? O que revelam 6 exemplos.

BBC News Brasil, 14 ago. 2026. Disponível aqui . ²⁷ Connolly sagrou-se vencedora com 63% dos votos na Irlanda em 2025.

STOCKWELL, Sam. Apud BRAUN, Julia, op. cit. ²⁸ Noboa foi reeleito em abril de 2025 com 56% dos votos no Equador.

BRAUN, Julia, op. cit. ²⁹ Ibidem. ³⁰ Ibidem.

³¹ DE NADAL, Lluis; JANČÁRIK, Peter. Apud BRAUN, Julia, op. cit. ³² BRAUN, Julia, op.

cit.

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