Cigarros eletrônicos podem ajudar fumantes a abandonar o cigarro, mas segurança de longo prazo ainda exige cautela

Cigarros eletrônicos com nicotina podem ser eficazes para ajudar fumantes a parar, mas a segurança a longo prazo ainda é incerta e exige mais estudos.

Cigarros eletrônicos podem ajudar fumantes a abandonar o cigarro, mas segurança de longo prazo ainda exige cautela

O debate sobre cigarros eletrônicos costuma oscilar entre dois extremos: de um lado, a apresentação do dispositivo como alternativa praticamente inofensiva; de outro, sua equiparação automática ao cigarro convencional. Uma ampla revisão publicada pela Cochrane indica que a realidade é mais complexa. Para adultos que já fumam e desejam abandonar o tabaco, os dispositivos eletrônicos com nicotina podem aumentar as chances de cessação. Isso, porém, não significa que sejam isentos de riscos.

O trabalho analisou 104 estudos concluídos, envolvendo 30.366 participantes adultos, dos quais 61 eram ensaios clínicos randomizados. O objetivo foi avaliar se os cigarros eletrônicos poderiam ajudar fumantes a permanecer sem fumar por pelo menos seis meses, comparando-os com adesivos e gomas de nicotina, dispositivos sem nicotina, apoio comportamental ou ausência de tratamento. A conclusão mais sólida está na comparação com a terapia tradicional de reposição de nicotina. Segundo os pesquisadores, há evidência de alta certeza de que cigarros eletrônicos com nicotina aumentam as taxas de abandono do cigarro convencional.

Em números absolutos, de oito a onze pessoas em cada grupo de cem poderiam parar de fumar utilizando o dispositivo eletrônico, contra aproximadamente seis entre aquelas submetidas à reposição de nicotina. Os resultados também apontaram vantagem dos dispositivos com nicotina sobre os cigarros eletrônicos sem nicotina. Nesse caso, a evidência foi classificada como moderada. A comparação com aconselhamento comportamental isolado ou ausência de suporte também favoreceu os dispositivos eletrônicos, embora com menor grau de certeza, devido às limitações metodológicas dos estudos.

A explicação não estaria apenas na administração da nicotina. O cigarro eletrônico também reproduz parte do comportamento associado ao tabagismo, como segurar o dispositivo, realizar a tragada e experimentar sensações na boca e na garganta. Essa combinação entre reposição farmacológica e substituição do ritual pode ajudar a compreender por que o método apresentou resultados superiores aos de algumas terapias convencionais. A questão da segurança permanece menos definida.

A revisão não identificou aumento claro de eventos adversos graves, que foram raros nos grupos estudados. Irritação na boca ou na garganta, tosse, dor de cabeça e náusea foram as reações mais frequentemente relatadas e, em muitos casos, diminuíram com o tempo. Ainda assim, os pesquisadores reconhecem que os estudos disponíveis são relativamente curtos e possuem número insuficiente de eventos para afastar riscos menos comuns ou consequências de longo prazo. Outro ponto decisivo é que os resultados dizem respeito principalmente a produtos regulamentados, contendo nicotina e utilizados por adultos fumantes com a finalidade de abandonar o cigarro.

Líquidos clandestinos, dispositivos adulterados e produtos destinados ao consumo de THC podem apresentar perfis de risco completamente diferentes. A revisão também não sustenta o uso por pessoas que nunca fumaram, adolescentes ou usuários interessados apenas em iniciar o consumo de nicotina. A própria qualidade do conjunto de evidências exige leitura cuidadosa. Dos 104 estudos avaliados, apenas 11 foram classificados como de baixo risco de viés, enquanto 70 apresentaram alto risco, grupo que inclui todas as pesquisas não randomizadas.

Além disso, a tecnologia dos dispositivos evolui mais rapidamente do que a produção científica, o que dificulta transferir automaticamente os resultados obtidos com modelos antigos para produtos mais recentes. O estudo da Cochrane oferece, portanto, uma resposta relevante, mas delimitada. Para fumantes adultos que não conseguem abandonar o cigarro por outros meios, dispositivos eletrônicos regulamentados com nicotina podem funcionar como instrumento de cessação e redução de danos. Eles não devem, contudo, ser tratados como produtos inofensivos nem como opção recreativa para quem nunca fumou.

A eficácia está mais bem demonstrada do que a segurança prolongada, e essa diferença precisa permanecer no centro das decisões clínicas e regulatórias. fileciteturn0file0 Referência LINDSON, Nicola et al. Electronic cigarettes for smoking cessation . Cochrane Database of Systematic Reviews , 2025, Issue 11, Art.

No. CD010216. DOI: 10.1002/14651858.CD010216.pub10.

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