O 7 a 1 do Brasil: o que um Congresso de livre mercado pode significar

Um resultado recorde para os partidos favoráveis ao mercado deu ao Brasil sua melhor oportunidade em décadas para reduzir impostos e burocracia.

O 7 a 1 do Brasil: o que um Congresso de livre mercado pode significar

O 7 a 1 chega ao Congresso Perder para a Alemanha nunca foi uma vergonha. A Alemanha é tetracampeã mundial. A vergonha foi o dia 8 de julho de 2014: em uma semifinal de Copa do Mundo disputada no Brasil, a Alemanha derrotou a seleção anfitriã por 7 a 1. Os ingleses amam o futebol tanto quanto os brasileiros e sabem o que significa quando um placar se transforma em uma cicatriz: doze anos depois, ainda evitamos falar daquela partida.

O “7 a 1” tornou-se nossa expressão para uma derrota absoluta. Foi isso que a esquerda brasileira sofreu nas eleições gerais de domingo, 4 de outubro. Não na disputa presidencial, que irá para o segundo turno em 25 de outubro, mas no Congresso Nacional, composto por 513 deputados e 81 senadores. A esquerda foi reduzida a uma minoria nas duas Casas.

E o chamado centrão , um bloco de partidos sem orientação ideológica definida que, durante décadas, apoiou qualquer governo em troca de cargos e verbas orçamentárias, perdeu seu poder de arbitrar o jogo. O que disseram as urnas De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), o presidente de esquerda que busca a reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Do outro, Flávio Bolsonaro, senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato do Partido Liberal (PL), de direita. O PL conquistou 121 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, e terá 28 das 81 cadeiras do Senado.

Toda a esquerda, somada, terá 124 deputados, quase o mesmo número que o PL sozinho. Isso muda as regras do jogo. Alterar a Constituição exige três quintos dos votos de cada Casa: 308 deputados e 49 senadores. Fora da esquerda, há 389 deputados.

A destituição de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a corte constitucional composta por 11 membros, é atribuição do Senado e exige dois terços dos votos, ou seja, 54; 54 senadores já se declararam favoráveis ao uso desse instrumento. E, como os ministros se aposentam aos 75 anos, o próximo presidente poderá nomear até quatro dos 11 integrantes da Corte. Na disputa presidencial, Flávio terminou à frente: 47,03% contra 45,16% dos votos válidos. Mais uma vez, as pesquisas não conseguiram antecipar o resultado: desde 2018, elas subestimam os votos de Bolsonaro em pelo menos seis pontos percentuais.

Os leitores britânicos conhecem esse fenômeno: o chamado shy Tory effect (efeito do eleitor conservador que não revela sua preferência nas pesquisas) também existe no Brasil. De frente parlamentar a bancada Essa maioria não foi um acidente. O Congresso brasileiro já dispunha de um instrumento regimental para organizar ideias acima das divisões partidárias: as Frentes Parlamentares, grupos temáticos formalmente registrados, semelhantes aos caucuses americanos e aos Grupos Parlamentares Multipartidários ( All-Party Parliamentary Groups ) de Westminster. Por meio desse canal, o Instituto Livre Mercado, o centro de estudos que dirijo em Brasília, reuniu mais de 225 parlamentares aliados.

Um Grupo Parlamentar Multipartidário reúne simpatizantes, mas não obriga ninguém a votar de determinada maneira. Thatcher compreendia que disseminar simpatia por uma ideia não é suficiente para governar um país; é necessário compromisso. Em 2026, demos esse passo. A Bancada do Livre Mercado ofereceu a todos os candidatos um termo de compromisso público, inspirado no compromisso da organização americana Americans for Tax Reform : opor-se a qualquer aumento de impostos, combater regulamentações que restrinjam a liberdade econômica e defender a liberdade de trabalhar, investir e empreender.

Ao todo, 725 candidatos de 24 partidos assinaram o compromisso, concorrendo a todos os cargos em disputa. Destes, 114 foram eleitos: 79 deputados federais e 5 senadores. Contabilizando os signatários que já estão no Senado, a Bancada ocupará 87 das 594 cadeiras do Congresso a partir de 2027. Isso não é mera simpatia: é uma assinatura, um nome e um placar.

Ações, taxas de juros e a conta Na segunda-feira, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, subiu 7,70% e fechou em um recorde de 206.911 pontos. O real registrou sua maior valorização em um único dia em mais de oito anos: um dólar americano agora compra R$ 5,00. As taxas de juros futuros caíram, e a probabilidade de o Banco Central reduzir a taxa básica de juros em meio ponto percentual em dezembro saltou de 18% para 45%. O mercado está precificando um Congresso capaz de cortar gastos sem precisar comprar votos individualmente, por meio de negociações pontuais.

O custo do capital no Brasil é, no fundo, o custo do nosso sistema político. O placar que importa No Índice de Liberdade Econômica de 2026 da Heritage Foundation, o Brasil caiu para a 134ª posição, com 52,4 pontos, sendo classificado como “majoritariamente não livre”. Em 2025, ocupava a 117ª posição. O objetivo do Instituto Livre Mercado é claro: primeiro, estar entre os 100 melhores; depois, entre os 50; e, finalmente, entre os 10 primeiros.

O domingo abriu uma janela parlamentar para uma agenda de livre mercado: menos impostos, menos Estado, mais mercado. O segundo turno decidirá quem ocupará a Presidência. O 7 a 1 já decidiu quem fará as leis. Como ensinou Mises, não são os governantes que mudam um país, mas as ideias.

Agora, elas têm votos.

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