O mais belo sorriso

A disputa política contemporânea reflete o conflito entre a busca pela autenticidade humana e a ilusão do consumo digital.

O mais belo sorriso

Há um sorriso que não cabe em vitrine. Mora nas calçadas esburacadas do fim da tarde, no rosto do velho que ri de uma bobagem qualquer, e mostra, sem pudor, os vãos que a vida sofrida e agreste foi deixando. Mora também na boca da criança, pobre, descalça, que perdeu o primeiro dente de leite e exibe a janelinha ao mundo como quem abre as portas de um castelo. Nenhum dos dois sabe onde está a câmera.

Nenhum dos dois quer vender coisa alguma. E, no entanto, quem os vê, sorri de volta, porque o sorriso banguelo não pede licença: simplesmente contagia. Do outro lado da tela brilha outro sorriso. Branco demais, simétrico, artificial demais, lentes de porcelana que ofuscam a vista como farol que não guia, apenas cega.

Ele posa ao lado do carro que não é seu, da mansão alugada por uma tarde, do jatinho fotografado de baixo para cima, para que o céu pareça pertencer a alguém. Esse sorriso não convida. Cobra. Cobra que você deseje o mesmo, que se sinta menor por ainda não ter, que pague, em infinitas prestações, pela promessa de um dia sorrir igual.

Dizem que estas eleições são um duelo entre direita e esquerda. Também são. Mas antes do voto, há outra disputa, mais silenciosa, mais profunda: a disputa pela imaginação, pelo desenho do que chamamos de uma boa vida. E nessa disputa, uma voz ecoa alto nos palcos e nas telas, a voz dos influenciadores messiânicos empresariais da vida, sussurrando aos jovens e aos desiludidos que riqueza é sucesso, que sucesso é felicidade, e que, se a felicidade ainda não chegou, é porque você ainda não pagou o suficiente por ela.

É uma voz que encontra ouvidos porque fala a uma nova sociedade: conectada, gananciosa, sedenta por ódio, e, principalmente, infeliz. Encontra refração em uma dor verdadeira: a do moço que não enxerga amanhã, a da mulher que trabalha e não avança, a de tanta gente que se sente invisível. Desejar mais não é pecado. É humano.

O engano está em confundir a casa com a fachada, a vida com a fotografia, o ser com o ter. Porque a vida das telas é feita de superfície, e a superfície, por natureza, esconde o fundo. Atrás de muitos sorrisos de porcelana há noites sem sono, há a ansiedade que não descansa, há dependências, muitas vezes químicas, que não aparecem no filtro, há depressões vestidas de festa. Quem precisa parecer feliz diante de milhares raramente encontra tempo para ser feliz diante de si.

Consumir para ser feliz é sede que se mata com água salgada: cada gole promete alívio e entrega mais sede. E enquanto a roda gira sem sair do lugar, o que de fato sustenta uma vida — o abraço, o tempo, a saúde, o sentido, a roda de amigos — segue sem curtidas, porque não há como parcelar o que não tem preço. Talvez por isso o sorriso banguelo incomode tanto. Ele é testemunha de que a alegria não exige retoque, de que se pode rir inteiro com a boca incompleta.

Não se trata de enfeitar a pobreza, que é ferida e precisa ser curada, mas de lembrar que a dignidade e o riso nunca foram mercadoria exclusiva de quem pode comprá-los. Quando chegar a hora da escolha, nas urnas, que se pergunte não apenas quem promete mais ouro, mas que ideia de felicidade vem embrulhada junto. Um povo não se mede pelo brilho dos dentes que exibe, mas pelo número de pessoas que conseguem sorrir sem medo. E esse sorriso, com dentes ou sem eles, é o único que, de fato, contagia.

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